segunda-feira, 1 de abril de 2013

PÉS DESCALÇOS


“Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação” (Luiz Gonzaga)
     Minha vó sempre dizia que quando nós morremos a terra há de comer o nosso corpo. Lá na minha terra, em São Raimundo Nonato a seca tá devorando o povo vivo. A vida lá é mais sofrida que a morte. Meus avós (que Deus os tenham) é que o digam. Sofreram até o ultimo suspiro. A seca tá braba. A seca tá viva. Ninguém óia por nós. Somo povo esquecido. Ninguém ta nem aí pra nós. Vim da minha terra, precisei, pegar mais de dois ônibus pra chegar aqui em Teresina. Me disseram que o governador mora aqui em Teresina. Numa casa branca. Vou até lá pra nós conversar. Pr’ele se alembrar da minha gente, do meu povo sofrido, que só vendo. Vim com a cara e a coragem. Sem conhecer ninguém. Vim pelo meu povo. Tenho sede de investimento político. E você?
     Desci da rodoviária de Teresina, tudo era novo e estranho, meu coração estava apertado. Sem conhecer ninguém, segui sem rumo. Na guarita da rodoviária pedi informação ao aparente guarda, que ali se encontrava, perguntei à ele onde ficava a casa branca, ele riu de mim, e me apontou ao acaso o destino incerto. Continuei em frente, algumas ruas abaixo avistei um moço lavando a calçada com uma mangueira d’água. Entrei em desespero, nunca vi alguém desperdiçando água assim. Fui imediatamente falar com ele. O moço não se intimidou com minha presença, nem com o lamento de tal desperdício, ele me olhava estranha, me perguntou de onde eu vinha e para onde ia, respondi calmamente, expliquei os meus motivos, ele se mostrou interessado em me ajudar, disse que me dava carona até a casa do governador, mas que antes precisava me levar até a casa de uma amiga, aceitei contente, crente que estava tudo bem. Sebastião, era seu nome. Entrei dentro do carro dele, antes disso ele fez uma ligação estranha, cochichou algo e desligou.
     Chegamos na casa da tal amiga, antes de entrarmos ali saiu de lá uma moça, com roupas curtas e maquiagem no rosto, salto muito alto, estranhei, antes de entrarmos, tirei  a sandália do pés e entrei descalça. Sebastião parecia já ter intimidade por ali, foi logo chamando por Agostina, sentamos do sofá, logo desceu das escadas aquela mulher: com um vestido vermelho, quase nua, com decotes exageradamente à amostra, e com um leque na mão. Senti medo daquilo. Agostina se aproximou de mim, me elogiou, e disse que serviria uma bebida. Perguntei assustada à Sebastião o que aquilo tudo significava, ele tentou me acalmar, mas não adiantou, resolvi sair dali correndo. Aos gritos e socorro, sai em desespero, esbarrei numa moça que ali passava, ela sentiu pena de mim, pedi encarecidamente a sua ajuda. Explique tudo o que houve, então ela me tirou dali e finalmente me levou para o destino que eu tanto buscava.
     De longe avistei a casa branca, era linda, meus olhos brilhavam de tamanha alegria. Havia pássaros anunciando a minha chegada, era carcará do meu sertão. Atravessei o caminho de entrada da porta central, chegando lá, tirei novamente minhas sandálias, pois meu avós me ensinaram que, antes de entrar na casa dos outros, se deve tirar as sandálias dos pés, pra não levar a sujeira da rua pra dentro de casa. (Ítalo Lima – 01/04/2013)

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